Eu..Lia...

 

Olindense por amor e escolha e Recifense de nascimento, professora de Língua Portuguesa.

Amiga, companheira, justa, verdadeira, mas com alguns graves defeitos, brigona, encrenqueira, jamais  injusta.

Desenvolvi no decorrer da vida, as artes plásticas como divertimento, como pintura óleo sobre tela, decorações e pátina.

mas de todas as construções artísticas preparei-me com esmero para a escrita, a arte da elaboração dos textos

e com um desejo maior...que o leitor mergulhe como um personagem.

Desejo todos dias felicidade para todos, apesar das adversidades do dia-a-dia de cada um.

Família

Venho de uma família sólida, uma mãe que soube doar amor,

carinho e alguns tapas na hora necessária. Hoje olho o céu e

vejo uma estrela piscando e sei que ela escolheu ficar ali, no céu e

está sempre invadindo meu quarto com seu brilho de estrela.

Mesmo que o sol esconda por algumas horas,

eu sei que ali está minha mãe feliz e sempre guiando meus passos.

Meu pai, antes de pai um amigo sincero, fiel adorável,

um HOMEM que cita que requisitos bons, como ser humano não é

elogio é dever de cada um e ele segue a risca o princípio cristão:

Amai o próximo como a ti mesmo. E assim sendo diz tudo.

Filhos, meus lindos bonequinhos , que criei com amor mas ficaram grandes,

homens que aprenderam a cantar e voaram para longe do ninho, mas não

esqueço meu pequenos, sempre com o mesmo amor que os escolhi para serem meus.


Amor


Os amores chegaram na hora certa e partiram na hora exata. Mas cada um formou um elo muito forte de amizade. Sou aberta a um bom papo, a um companheiro e a um novo amor.


Amigos

 

Todos meus amigos da net, todos meus amigos reais,

enumerá-los seria maldade, se  acaso esquecesse unzinho,

reservo-me a dedicar cada texto a cada um também, como

se fosse um diamante que gostaria que guardassem em seus corações.



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Os textos aqui postados, são de minha autoria e tenho direitos reservados sobre eles.

Espero que gostem, sejam benvindos(as).

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A Ceia na Divina Graça era uma Festa
Lia Lúcia A de Sá Leitão
28/03/2008

Tia Genoveva sempre tinha umas crises de musicista, sentava-se ao piano e obrigava a todos os primos ouvirem a lenga lenga dos compassos mal colocados, os subtons da música e um piano desafinado que a Tia insistia em se sentir a maior pianista do século. Estudou música a vida toda, mas música é arte, assim como artes plásticas são artes, assim como só cozinha quem ama a cozinha e seus segredos.
O castigo era duplo, primeiro a reza do Terço na capela, os mais velhos davam tapas nas cabeças dos mais novos, os mais novos choravam no meio do Terço e a Tia olhava com aquele olhar de quem diz depois conversamos, e todos sofriam a mesma tortura, não tinha salvação para os que estavam habituados a flatulência, os reclamões eram intensos, e o mau cheiro assassino impregnava o ambiente. Nesse momento não tinha perdão, era torturante o castigo da tia Genô.
Ouvir os ensaios depois da reza e antes da ceia.
Quem se dispunha ouvir a cafifenta tocar aquele monstro que tinha o privilégio de ficar sozinho numa sala linda de tons sóbrios, não sei se quase dourados pela cor amarelo ouro que perdeu o brilho com o tempo e desbotou ou se era daquele jeito mesmo, espelhos por todos os lados, a Imperatriz por dedução era narcisista e os parentes também, peças de cristal importados da Boêmia, no teto um afresco pintado à francesa, com madonas gorduchas vestidas de azul e dourado, estatuetas em bronze segurando castiçais para doze velas, tudo que tinha ali era da época o Império, a Casa Grande era importante sim!
Aquela sala foi preparada para receber a Imperatriz do Reino de Algarve, D.Tereza Cristina em um passeio ao Recife e algum devaneio pela zona da mata para conhecer as terras de engenho e as famílias influentes, na verdade representantes oligárquicos.  O pai do meu bivô era dessa casta mas tinha algo de bom, não fazia vergonha às idéias das gerações futuras, todos opositores ao governo. Esse parente era um dos camuflados políticos. Representante dos guetos adversários ao Imperador, mas em silêncio e segredos maçônicos fato da nossa família naquele momento.
Como um dos latifundiários pernambucanos o pai do Bivô aceitou a visita com todas as pompas e não regateou em comprar o piano de calda trazido da Alemanha, uma raridade em terras brasileiras para deleite da festa para a Imperatriz. Tenho um primo vigarista que garante a visita da princesa lá na casa grande, mas na verdade a D. Tereza Cristina nunca pôs os pés em terras do pai do bivô causando inclusive uma celeuma política considerada como desfeita e descaso.
O que sobrou para os mais jovens da família foi a tortura de ouvir a tia massacrar os nossos ouvidos com musicas que segundo Tia  Filomena ela criava na hora em que se sentava ali, nunca lera nenhuma partitura com tamanha mostruosidade, e olha que a Tia Filó sabia o que dizia essa
Tia era pianista de verdade, apresentou-se até no Teatro e ensinava música nas horas vagas, levei muita varetada nos dedinhos quando errava uma nota da partitura. 
Depois de todas as rezas da tia Genoveva, todos para o salão da Imperatriz, como ficou conhecido e atravessou séculos.
Queríamos correr para a cozinha, o cheiro da cozinha da Ba vinha atormentar nossos pequenos sacos e guloseimas e a tia nem se abalava com nossas trocas de olhares, como quem dizia, vamos ficar quietos para ela acabar logo essa danação. Mesmo assim, nosso primo flatulento não obedecia, olhávamos o menino com olhar de quem vai dar umas boas tabefadas, e assim era feito, formávamos um corredor polonês e o safado levava tapas de todos, justificando o tempo a mais de tortura causada por ele.
Toda essa turnê cultural acontecia aos sábados, era tradição e por isso a ceia era uma homenagem ao Imperador, se o caro leitor quiser experimentar a receita ai está copilada com muita recordação dos tempos de criança.
Depois de algum tempo quando começou o interesse pela Casa Grande e obviamente aquela relíquia da gastronomia que ficava sob guarda dos olhares de Ba, passei a pesquisar como os ingredientes finos, muitos categorizados como iguarias vinham da Capital ou do exterior trazidos por encomendas feitas aos caxeiros viajantes que faziam freguesia naquelas cercanias.
Hoje, tudo está acessível às nossas mãos, basta ir ao supermercado e ter o cuidado da escolha.
Não vou regatear tempo, aqui encerro momentaneamente o texto narrativo para ofertar ao caro leitor o que chamávamos babando O  Arroz do Navegador Dom Pedro I. pegue a caneta e anote!
300 gr de arroz, 1/2 kg de camarão rosa inteiros, 1/2 kg de dourado cozido, 1/2 kg de lula em anéis, 1/2 kg de mexilhões com cascas, 1 ramo(s) de alecrim, 1 maço(s) de coentro, 1/4 kg de ervilha, 2 cebolas em cubos pequenos, 2 pimentões vermelho fritos, 200 gr de favas cozida(s), 1 cabeça de alho laminada,  pitada de páprica doce, 2 colheres de sopa com pimenta calabresa, 1 colher de chá com açafrão em pó, 1 colher sopa de azeite português
Modo de fazer:
Numa panela funda, colocar para ferver um caldo de peixe, com bastante água  o coentro, a cabeça de alho inteira, um pouco de azeite de oliva, salgando a gosto.
Na frigideira, fritar em fogo lento com pouco azeite os frutos do mar, afastando para as laterais, não esquecer de ir salgando cada item, a gosto. Quando pronto, só retirar da frigideira os mexilhões com casca e os camarões maiores que serão usados no final para enfeitar.
Fritar as verduras, sem tomates, sem esquecer de salgar cada item, afastando para os lados. Refogar o alho até ficar bem amarelinho, jogando então tomates bem picados, sempre colocando um pouco mais de azeite à medida que elaborar o prato. Misturar tudo com uma escumadeira, fritando e pingando mais azeite. A partir deste momento, temperar com a páprica, o açafrão e a pimenta, misturando tudo até ficar com a cor uniforme.
Depois:
Derramar o caldo de peixe, que deve estar fervendo e saboroso, enchendo até quase a borda e passar para fogo alto e deixar ferver por pelo menos 15 minutos. É importante que, a esta altura, a frigideira esteja toda fervendo por igual. A mistura não deve ser mexida, o caldo trabalha por si só. Colocar o arroz em cruz em toda a extensão da frigideira e esperar ficar pronto, de preferência um pouco durinho.
Finalização:
Quando o arroz começar a secar, enfeitar com os camarões, os mexilhões, os pimentões. Pulverizar com um pouco de páprica doce e espalhar algumas rodelas de limão. Quando o arroz estiver ao ponto, desligar o fogo e cobrir a frigideira com alguns galhos de alecrim e abafar. Esperar uns 15 minutos para servir.

Espero que o caro leitor possa brincar com as iguarias da Casa Grande, nesse momento estou vestindo o uniforme.



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Reunião Mensal de Família


Lia de Sá Leitão (Normanda)
21/03/2008


Uma receita da Ba para um bate papo informal de parentes, cervejinhas, vinhos, hoje substituímos, suco de fruta frescas por refrigerantes, mas sempre lembrando a culinária da casa grande do Conde da Divina Graça, hoje, aquelas crianças são adultos, fora à parte os que morreram, de morte morrida das doenças de menino, de morte matada de bala de tocaia vítimas da violência do campo, outros que partiram dessa para a Eternidade partiram com o nome na História, esses foram os políticos, os ativistas netos de latifundiários que exaltaram a partilha das terras, dos outros é claro, e foram ceifados pela dita a dura, os mais sabidos permaneceram cor de rosa, sem muita envergadura da foice e muito menor o martelo.
Verdade verdadeira pe que todos os vivos em alguma ocasião do mês freqüentam a casa de Normanda para não deixar a tradição da família ser esquecida.

Inicialmente só as mulheres, depois o restante aderiu.
Continuamos a velar nossos defuntos nas recordações das comilanças e resolvemos criar uma norma, mesmo com os homens freqüentando, somente as mulheres vão para a cozinha, cada uma com uma atividade, e a conversa, as fofocas, as chatices dos maridos as trelas dos filhos, netos e agregados, não podíamos perder o ritmo da conversa desenvolvida ao longo da manhã, descontraída e animada, ali de brigava, ao mesmo tempo se falavam as verdades entaladas e os desaforos. A gritaria parecida família italiana em dia de festa.
Somos nordestinos, caro leitor.  Acaso tenhamos algum parentesco chegamos ao bandeamento dos portugueses, espanhóis, judeus, árabes, índios e negros, uma verdadeira Mesopotâmia, um caldeirão humano.
 Como estávamos perseguidas pelos namorados, noivos, maridos resolvemos abrir para a presença masculina, o homem nunca pode se meter na cozinha a não ser para pegar gelo, do uísque, rir de uma fofoca, chorar dor de corno ou enrolar e beliscar um ossinho de galinha ou roubar uma colherada de miúdos de galinha ainda em cozimento para servir de tira gosto na hora de reunir os dois grupos para a cervejinha ou na varanda, ou mesmo ali na cozinha. Nesse mês escolhemos para lembrar a gastronomia da fazenda o que chamamos de sarapatel, você nem tem idéia da animação.
Nosso miudinho ou picadinho feito com as víceras das galinhas, moela, coração, fígado e sangue bem temperados e com um pouco de pimenta do reino para dar o ponto, o nosso sarapatel não pode deixar de ter o coentro, já tentei mudar a receita, porém o sabor está na quantidade e qualidade do coentro que se coloca.
Caro leitor deixarei uma receita dos idos de 1888 registro do caderno na verdade não sabemos até hoje quem escreveu aquelas tantas receitas passamos horas decifrando uma letra bordada, perfeita, tão bela, tão firme, tão ricamente adornado o caderno é uma relíquia que guardo a fios de faca, garfos e colheres. Esse caderno era a bíblia de Ba, que sempre dizia: menino num mete a mão no caderno que a Sinhá Dona Josefina deixou de herança para a casa do Conde, mas nem registro temos dessa alma delicada, acreditamos pelos cochichos das ajudantes de cozinha, era uma dama trazida da França para educar as filhas do Conde, um dia, amanheceu roxinha e fria, finada que nem passarinho, e elas falavam que a Sinhá Dona Josefina morreu amante do Bivô. Lembro apenas que um dia perguntei onde estava a lápide daquela mulher, Ba levantou-se do banco e falou sério e com a voz firme, sai daqui menina enxerida! Onde se viu mulher de vida fácil ter sepultura de Igreja? Não entendi, não perguntei mais nunca nada sobre o assunto e hoje tenho a posse desse tesouro, o livro que me fez voltar a uma Faculdade de Gastronomia depois de anos de formada.      
Acredito que os caros leitores estão mais interessados em conhecer a receita do sarapatel de galinha que o final das histórias recentes das reuniões familiares.

O bom mesmo são as histórias das velhas tias, do velho e rico cemitério das boas assombrações.
Terei oportunidade de dedicar uma parte dos contos, aos Padres comilões que conheci, aos retratos dos primos que morreram e os morridos, dos amores e das paixões avassaladoras que levaram a sepultura tias e tios, primos e primas de dois ou três séculos passados.
Histórias que nunca foram esquecidas e os retratos roubados e vendidos para museus, ou coleção particulares de emergentes. Espantou-se caro leitor? É a pura verdade, os parentes pendurados que restaram nas paredes e olham todos os lugares da casa foram aqueles que consegui resgatar em juízo, em brigas ferrenhas de preservação familiar,  uma grande parte da história de nossas fotografias seculares de família estão mesmo penduradas nas paredes de emergentes nem sequer imaginam as almas que compraram enquadradas naquelas molduras vendidas pelo primo mais sem caráter da família, que Deus o tenha e lhe tape os ouvidos e os olhos, o cabra era safado não valia a lápide que ganhou no cemitério da família.
Esse terá uma história especial e apesar de macabro tenho a receita de um prato delicioso da culinária nordestina que o bandido se deleitava desde menino. Não entendo o refinamento do paladar do vigarista de gravata e paletó que rodava as avenidas em carros de luxo e freqüentava os mais chiques locais do Brasil e da França.
Vamos a receita do sarapatel ou fujo mais uma vez ao tema e ao objetivo.
O maior problema é lembrar esse vigarista que dá vontade de apelar pela excomunhão.

Sarapatel de Galinha - Ingredientes


500g de coração de galinha, 500g de fígado de galinha, 500g de moela de galinha, 500g de sangue de galinha escaldado, um tomate cortado em cubos pequenos, uma cebola cortada em cubos pequenos, um pimentão pequeno cortado em cubos pequenos, dois dentes de alho amassados em pilão de madeira, três colheres(sopa) de óleo, duas colheres de sopa de vinagre, um maço de coentro fresco e cebolinha picados, pimenta do reino e cominho,  sal á gosto e colorau a gosto, um copo americano com água.
Modo de fazer.
Limpe bem e escalde os miúdos da galinha na água, suco de limão e sal por dez minutos, deixe esfriar e corte as víceras em quadradinhos pequenos reserve, em outra panela coloque todos os temperos e refogue uns cinco minutos, acrescente os miúdos cortados e adicione o copo com água. ( pode ser do tipo americano), deixe cozinhar por uns 20 minutos a consistência tem que ter um molho e os pedacinhos de víceras, os quais chamamos miúdo não podem ficar diluídos, observe porque pode a duração do cozimento (cocção) ser em dez ou quinze minutos.

Agora é a sua vez de treinar enquanto eu tenho inspiração para chegar aos quitutes do almoço na fazenda Divina Graça.



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O Café da Manhã.
Lia Lúcia de Sá Leitão
13/3/2008


Caros leitores, depois de uma noite examinando os lençóis brancos e cheirosos cheios de bicos da terra, fronhas limpíssimas  para o descanso das cabecinhas cheias de suores e areia das brincadeiras antes da reza. Na Capela, hora mais temida, a decisão da agenda do dia seguinte, vez por outra um morcego dava um rasante nas nossas cabeças, um grito só ecoava no átrio, imediatamente uma tia calava o assombro com um tapa nas orelhas, um belisco entre as costelas ou um olhar de matar cem. As torturas físicas não nos incomodavam. Ficavam as roxas, passavam apesar de arrancar algumas lágrimas momentâneas, o que mais doía era a tortura psicológica, “ nada de ir o açude pela manhã” , nada de ir caçar nambu (uma ave da região), nada de brincar no parquinho, nada de nada!
Rezávamos na verdade contritos para o tempo passar e cada um vestir-se para dormir, primeiro o leito doce da Ba para acalmar os ânimos, depois a mentirinha, eu tomei banho, só os anjos da guarda e a Chica, a  governanta que cuidava do limpeza das camas pela manhã, eles sabiam quem era cascão.
Mesmo na hora de dormir era tudo muito engraçado, um tinha medo de fantasmas, outros do sibilar das cobras, outros dos ratos que se equilibravam nas traves da velha casa, eu ficava no time dos que ficavam admirando os pirilampos, contando quantas vezes os sapos coaxavam e grilos cantavam na madrugada, e  mais desafiadora das apostas era saber quantas vezes a Tia Genoveva abria a porta para ter certeza que os santinhos estavam bem acomodados.
O sono naturalmente vencia os serventes das trelas das astúcias, adormecíamos, ai não lembro porque nunca ninguém falou como era, tenho uma vaga lembrança dos primos mijões porque tomei sopapos ao rir deles e espalhar na hora o café quem era o mijador de cama.
Ninguém acordava ninguém. As ordens eram rígidas, deixem a meninada dormir até cansar, porém, cinco horas da manhã a maioria estava de pé e todos corriam para o campo ajudar e ver Antônio ordenhar as vacas leiteiras era bom demais, leite espumando, caneco de alumínio tosco e sujo, quem estava incomodado com a limpeza? Apenas as mães que secavam a língua de tanto reclamar por causa dos pés no chão.
Depois da ordenha voltávamos rindo, saltitantes, a liberdade era um fenômeno nas nossas vidas, todos entravam pelas portas da cozinha aos abraços e beijos da Ba. Ela sentava cada um em uma cadeira estrategicamente separada para não ter brigas.
A louça bordada com o brasão do bivô que estava por toda a casa para lembrar a estirpe da casa grande, para a meninada era puro assombro, era aquele retrato do velho e eles faziam o velho não se acomodar na sepultura e vivia assombrando a casa.
As iguarias eram muitas. Arroz doce, macaxeira, iame, molho de coco para a tapioca, cuscuz amarelo seco, cucuz molhado com leite de coco, leite, sucos de pitanga, laranja, carambola, queijo assado, queijo amarelo de manteiga, ovos fritos e ovos de codornas cozidos e sem cascas, café fresquinho e queimando a língua, pão de rosca, pão de fubá, pão doce, pão de massa, delícia de sabor!
O que mais me deixava enlouquecida era a variedade de cuscuz que a Ba não poupava o saquinho da gula.
Quem não gosta de doce ? O sucesso na cozinha da casa grande no café da manhã era aquele arroz doce, hum! Sinto salivar só em pensar, o cheiro a textura, o sabor, a travessa que era consumida em instantes, o manjar de Ba e a fonte de energia daquela manhã.



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O ALMOÇO. (Parte II)
Lia Lúcia A. de Sá Leitão.
12/03/2008

Sexta feira, final de tarde cada tio, tia, primos mais velhos, primos mais novos, arrumavam suas roupas, brinquedos, mimos para as brincadeiras de final de noite ou mesmos para os bingos. Jogos e mais mimos para a garotada.
Depois de tudo arrumado cada um dos primos com um sandwiche a mão e uma coca cola do lado para não parar na estrada procurando o que saciar a fome de cada um, nós parecíamos umas dragas, nada passava sem ser percebido, desde laranjas até pitombas, ou cajus que era terminantemente proibidos de chupá-los dentro do carro,manga, nem por sonho, depois de muitas brigas por causa da melequeira que fazíamos dentro do carro com as suculentas frutas compradas na beira da estrada, os adultos resolveram dar um ó no saco de guloseimas da gente viajando justo no lusco fusco para não despertar a famigerada fome de nada, como dizia uma das tias, só fado, esse fado é o mesmo que mania de mastigar!

A festa começava na estrada um gritava e apontava para  outro, olha lá o carro de tio, vai papai corre, passa aquele latão, mostra que aqui temos máquina! Quando menos esperávamos passava outro carro por nós aos gritos, amarra a carroça ai atrás do carango que rebocamos! Papai ria  a valer, dava uma corridinha na Veraneio azul 4x4 e ultrapassava o tio cortando luz. E assim a estrada ficava pequena para nove carros entupidos de crianças, e tralhas sem faltar o anzol ou os barquinhos infláveis.

Essa brincadeira de comboio durava umas 3 horas que mais parecia uma eternidade, por que quanto mais gritávamos mais devagar os pais dirigiam, depois que não tinha jeito a gritaria, eles voltavam a um colar no noutro, e voltava a gritaria e eles voltavam a diminuir a marcha.

Finalmente a porteira da fazenda, as luzes ao longe, o cemitério a uma certa distância indicava que tinha defunto fresco porque os gases pegavam fogo quando em contato com a atmosfera, e mamãe dizia séria, olha a alma ali está fugindo da sepultura! E o silêncio tornava-se sepulcral.

Atravessávamos  a ponte ufa! O cemitério tinha ficado para trás. E os carros estacionados na lateral, toda a tralha sendo levada para os quartos que pertenciam a cada neto, a avó e as tias nem desciam a escadaria apenas apertavam as mãos de alegria, ou  aflição, já descíamos um encrencando com o outro,o carro do meu pa é mais grande que o do teu pai, e o outro retrucava, que adianta ser mais grande se num corre? Sempre um adulto acudia para a contenda automobilística não terminar em tapas.

Ba tinha um agrado para cada um de nós, mas para mim era sempre especial, ela fazia um doce que quanto mais puxava mais delicioso ficava era o meu favorito.
Pensa que parávamos para descansar? Um corria parra o pátio, outro para os barquinhos de madeira que o avô mandou arrumar, eu ficava sentada, olhando as bandejas de quitutes que a Ba preparava para servir aos seus filhos de leite. Ficava por ali, como quem não quer nada e experimentava de tudo um pouco, e anda ouvia a conversa de todos os adultos, era bem mais interessante que ir brincar de roda, de corda, de barquinho com os primos.



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Almoço de Família na Casa Grande.(Parte I)
Lia Lúcia de Sá Leitão – 11/03/2008


Saudades! O almoço final de semana na Divina Graça era obrigatório, os filhos da avó netos e os bisnetos todos estavam presentes. A meninada fazia a festa!
Tentarei dar uma visa parcial das tias até a matriarca Mãe Lula.

Tia Juvina, não lembro ter conhecido um tio marido dela que tivesse vivido mais que dois anos, ela era mãe de 6 filhos desconsolados, tristes, chorões e frágeis, nunca agüentavam brincar comigo, às vezes na minha santa inocência infantil, considerava-os bobões desde um dia que eu disse ao primo Geremias, sente-se nesta prastada de merda de vaca que você vai ser um homem rico quando crescer, ele sentou. O primo Geremias não viveu muito, morreu como passarinho, amanheceu roxo e duro, nem deu último suspiro na frente de ninguém! Ele era meio esverdeado, acho que tinha problemas crônicos de fígado e a tia era muito sabida queria curá-lo com as ervas da fazenda, vai ver que matou pela cura, ou seja, emplastos de folha no peito, chás, lambedores e óleo de rícino. Como a morte não era assunto de crianças, associei a morte daquele primo as outras tantas mortes inexplicáveis dos maridos da Tia.

Genoveva, Darciclary, Etelvina, as intrigantes fofoqueiras que tudo era pecado, todas três moças velhas, ou seja, não casaram, as más - ou melhor - as boas línguas juravam pelas costas do bivô que nenhuma era virgem seladas, todas tinham se perdido ( algumas vezes deram a preciosa pela bagaceira ou escondidas nos quartos da casa grande). O povo falava que esconderam filhos na Igreja, deixaram numa tal de roda. Depois descobri que essa roda era um local onde mães solteiras da sociedade tinham filhos deixavam lá no convento, ( abandonavam!); quando a criança tinha sorte os avós ainda davam uma assistência quando não; serviam para a contabilidade dos abandonados na instituição de caridade.  Conheci uns 4 primos que foram estudar na Europa, voltaram doutores, em Direito e Medicina, rapazes nem davam cartaz para a meninanda, também, quem deixava eu chegar perto dessa gente para fazer algumas perguntinhas capciosas?

Feias com força, a tia Francisca foi abandonada pelo marido quando soube que na herança  nem tocava no nome dele, nem um palmo de terra, teve filhos todos natimortos, essa era altamente frustrada por que ninguém valorizava seus dotes, a tia era tão incompetente que nem sabia fazer fofocas, essa rezava de dia a noite por toda a família.

Tia  Guertrudes era gente boa, tinha um coração de mãe, agüentava todas as minhas trelas, vivia assim: Liinha meu amor onde você está? Liinha meu amor venha aprender a bordar com a tia. Liinha venha aprender a pintar. Liinha venha ouvir a história da bisa. Liinha para tudo que é lado, tinha dias que eu queria trocar o nome!

Tia Ismengarda era belíssima com seu par de olhos azuis, tinha um corpo lindo, mesmo debaixo daquela roupa carmelita, a brancura da pele, a leveza da voz, a paz que transmitia era impressionante. Fiquei sabendo tempos depois que a Tia ficou na clausura e só recebia visitas com uma divisória e se entregou à pobreza extrema e doou todos os seus bens ao Convento. Descobri que a Tia foi ser freira por uma desilusão amorosa. Apaixonou-se pelo filho de um rico fazendeiro e no dia o casamento ele fugiu com uma negra da casa grande sobrinha da nossa Ba.
Tia Ismengarda era a tia Santa de vero vero, essa era freira, as pouquíssimas vezes sempre muito altiva, ativa, mandava para casa sobrinho neto uns biscoitinhos que nunca esqueci o sabor, delícia!

Finalmente Lulu, minha avó linda! Fina flor da educação pernambucana, estudiosa, de uma cultura refinada, aluna de francês, grego, latim, pianista, uma artista perfeita. Uma mulher muito à frente do seu tempo, era ela que amenizava todas as críticas veladas contra a família, chegou a enfrentar o Governador da Província na época por ser um desafeto de meu bisavô, foi veemente em seu discurso a tal ponto que garantiu a paz entre as famílias oligárquicas. Mãe Lula era mais moderna que os nove filhos inclusive minha mãe. A família girava em todo dela, das ordens dela, dos olhares dela, não gosto de falar em sistema matriarcal quando falo em Mãe Lula, lembra um poder cego, porém o poder dela era bem racional, os castigos também, todos os primos sentiram o peso da mão dela, menos eu.
Mãe Lula dizia que eu seria a dona da cadeira que era dela, e sou! Só não sei exercer o poder que ela tão bem administrava.
Aos 105 anos, antes de fazer a Páscoa, mandou-me buscar no Rio de Janeiro, já era tarde, quando cheguei ao Recife, meia hora, antes ela tinha sido sepultada depois da Missa de corpo presente. 



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A Casa Grande e Seus Cheiros.

(Bolo Souza Leão – receita de Ba cozinheira da Divina Graça)
Lia Lúcia de Sá Leitão - 27/02/2008

Preciso mudar um pouco a temática das Tias insuportáveis e de seus  estilos de vida para ater-me aos tratos culinários que é o objetivo dessas crônicas. Espero que o meu amigo leitor possa saborear um pouco da cozinha de Ba, as receitas que foram remontadas integralmente com esforços quase que heróico depois de decifrar uma letra bordada e enfeitada por pontinhos acentos em desuso, e o ph de pharmacia, não é muito tranqüilo.
 
Finalmente voltamos aos cheiros da Casa Grande. Aqueles que viveram em fazendas, ou teve um palmo de terra no campo sabe reconhecer os cheiros peculiares. O bom ou mau humor da cozinha, dos bons ou maus momentos, festas ou sentinelas, constipação, aquelas gripes que mais parecem doença ruim do pulmão, resguardo, disenterias, dor de dente, batizados, casamentos, e porque não dizer que até corno tem comida com cheiro diferente, interessante é a visita do Padre da cercania, do Prefeito da cidade, do tio Juiz que mora na fazenda ao lado e nunca deu um dia de serviço ao Estado, do estudante vagabundo com ares de intelectual, e das férias, esse cheiro sinto até hoje, as deliciosas férias de meio de ano, nas quais os temporais nos arranjavam horas de dor nos pés curando as frieiras dos lamaçais que caçávamos sapinhos, sapos e cururus e deixá-los nos quartos das tias Juvina, Mocinha e Jenoveva.
Sempre sobrava para o mais fraco os cascudos e os castigos intermináveis, o pior deles era ficar na sala enrolados nas mantas, mais parecíamos zumbis. Ali, debruçávamos pelas janelas da sala que dava para a secular varanda longe dos respingos daquela chuva fininha, pares de olhos, olhando os campos verdes tremendo de frio e ao sabor da chuva, cheiro de terra molhada, bosta de boi, cabritos berrando tão longe que mal podíamos imaginar que daquele rebanho sairia o almoço do dia seguinte.

Na verdade são sentimentos, elementos, vivos, a cozinha da Casa Grande funciona como atriz principal e os coadjuvantes são aqueles personagens que circulam de dentro para fora,  em tempo a um belisco e a uma guloseima, a um café, a uma fofoca, as pazes das brigas familiares. As ações dos fatos enfrentam o grande palco da vida familiar.
Tudo tem seu tempero e todo tempero tem seu valor de originalidade.

Grandes pares de olhos, hoje,  míopes de tanta leitura, buscam as cores do passado, um saudosismo que esquenta a alma, será que nenhum primo lembra a Ba? As cocadas, os alfinins, as latadas de doce de jaca, manga, leite crespo com queijo ralado? Quem dava um tostão por chocolate tendo ali dentro de casa pirulito de mel, quem era besta de comprar um pacote de bolachas tendo bolinhos de goma ou mesmo uns biscoitinhos com goiabada que me fazem babar, outro dia vi uma receita numa determinada marca, não pensei duas vezes levei a caixa para casa fiz uma meladeira horrível e o máximo a que cheguei foram uns biscoitinhos tostados com gosto de água de chuchu, e tinha a tal da goiabada derretida no meio , não estou aqui expor meus dotes culinários fracassados.

Caro leitor como posso fazê-lo imaginar o cheiro da casa grande, daquela senhora que ficava no alto da colina dominando tudo e todos, nossa casa é linda! Ela sorri para o céu sem nuvens, ela sorri para o tempo que passa vaidosa, arrumada, cheia de histórias para contar, uma senhora matreira,  olhava cada um de seus netos e sabia pelo andar desconfiado as artes, as trelas, a casa grande tinha lá seus informantes do outro mundo, as paredes enormes e grossas, não digo toscas e sim seguras, tinham ouvidos, sabiam de cada passo, cada direção, cada furto na dispensa, cada mentira deslavada, contabilizava seus ancestrais em fotografias que olhavam de uma parede a outra, espichavam os olhos e viam quem corria pelo corredor, quanto medo aquelas almas ofereciam com seus olhares austeros, com seus bigodes impecáveis que faziam uma rosquinha nas extremidades. A casa grande se envaidecia de cada um, tinha tio ali que escreveu livros publicados na Europa, tinha tios médicos, tem um que é até nome de Avenida, de interior é claro mas é a rua principal, aquela que a vida caminha por ela, depois os carros, mais na frente caminhões enormes,
tem até lombada eletrônica porque é um pedaço de BR que corta ao meio a cidade.

Ali, a senhora dos bons fluidos tem coroinhas, Padres, Monsenhor, Bispo, Arcebispo, tem lá tios Marçons também tem nome nas ruas e praças da Capital, tem as tias solteironas, as que num deram pra nada e foram ser freiras de caridade e as mais safadas que deram mais que podiam e casaram com homens de bem, claro família rica e tradicional sempre arruma um besta pra tapar buraco, e o mais interessante que aqueles tios tinham ares felizes.
Posso me orgulhar de um tio que é nome de praça e tem até o busto dele lá numa plantado num monumento, bem bonito,  homenagem aos feitos políticos e de benfeitoria para a Capital e para os mais humildes, um grande tio, coração largo, homem de fibra! Só não queria ter tantas homenagens de olhar do céu, todos dizem que era tão bom que mora no céu, já pensou o que é  esse coitadinho olhar dar nuvens e ter certeza que desde que seu busto foi plantado ali naquela praça vive todo cagado pelas gerações e gerações pombos. É o orgulho da família, engraçado, ninguém teve a idéia de lavar o coitado que a cor do bronze está azinhavrada, esverdeada, bom deixa voltar ao cheiro da casa grande antes que esqueça o cheiro que quero fazê-los sentir, mesmo que pela imaginação.

IMAGINEM !

O dia amanhece azul sem nuvens, o fogão a lenha da Ba está aceso desde às 4 horas primeiro convite ao café é aquela fumaça que invade o terreiro com as últimas gotículas de orvalho, o jasminzeiro que exala um perfume adocicado o leite fervendo a água do café já no ponto, ninguém imaginava que existia cafeteira, era café pilado e feito na hora, cheirinho bom de café de pano, ai o pão...que pão delicioso, ali pingava suor, Ba cantarolava as musicas e misturava entre as da Igreja e as do terreiro, e salpicava aquela babinha ali na massa. Vinha a tapioca das casas de farinha, abertas era só assar o queijo, e fechar, beju pra molhar com leite e café e o bolo tradicioal, esse era quem levantava até as mulheres paridas da cama, delícia, vou tentar deixar a receita aqui para quem quiser experimentar, mas não falem para ninguém! É um segredo de família, um segredo mais guardado que as virgindades das moças. Anotem!  

- 1 kg de açúcar refinado, desses que parece de confeiteiro
- 4 unidade(s) de coco
- 400 g de manteiga
- 5 xícaras (chá) de água fervente
- 12 unidades de gema de ovo
- quanto baste de sal
- 2 kg de massa de puba
Ferva a água para tirar o leite dos cocos, desmanche a massa de coco na água e deixe decantar por várias vezes. Coe em um pano; misture as gemas com o açúcar, a manteiga e bata até ficar embranquiçada; junte a massa de puba e o leite de coco e bata bastante; acrescente o sal à gosto. Unte uma fôrma com manteiga e leve ao forno por 40 minutos.

Meus caros leitores não conhecem a massa puba? É o mesmo que massa da mandioca, crua é claro, é meio fermentada, mas bem lavada, lavada e muito mais bem lavada em peneira de cesto de palha e pano de algodão puro ela se torna uma massa branca,porém se você sentir algum cheirinho desagradável não foi nenhum menino por perto que soltou pum é o cheiro natural se não estiver bem lavada, bom, já estou cansada mas continue lavando a massa, e vai espremendo, vai lavando e espremendo, quando seus braços não agüentarem mais e você não sentir mais o cheiro de bosta ai sim pode usar está boa para preparar seu lindo e delicioso bolo. Engraçado aprendi na faculdade que o encarregado das guloseimas, bolos, tortas, tortilhas, e ui estou engordando com as sobremesas!  Chama-se CHEFF PÂTISSIER. Deu-me vontade de rir na cozinha de Ba  não precisava de nomesinhos franceses para se comer do bom e do melhor.
Saudades! Qual dos teus santos de devoção levou você para cozinhar em sua estrela? Aparece pra mim e diz em qual galáxia tem o cheiro da casa grande, os gritos dos primos, os berros desesperados da Tia Juvina com os sapos, os cachorros escondidos no gabinete do avô, a galinha socada no piano da Tia Genoveva. Em debaixo de cada cama os pinicos de xixi que a Senhora acordava a meninanada  meia noite pra fazer o serviço e não molhar a cama!
Já imaginou, aquela negra linda, farta, suculenta, africana de Angola, cheia de vida que dividia com todos num sorriso largo, cheia de beijos estalados, abraços apertados, na verdade era amor, um amor que escondíamos dos tios que a toda hora caiam numa peraltice. Ba partiu faz algum tempo, levou consigo o cheiro da casa grande, e levou também alguns segredo será desvendei o segredo tão delicioso quanto famoso bolo Souza Leão tradicionalíssimos em Pernambuco? Lavar e lavar e lavar e morrer esbaforido de lavar e espremer a massa de mandioca?
Cada ramificação da família de tamanho orgulho que tem desse bolo secular, mantém registrado em cartório a sua receita, toda ela original claro, a única coisa que muda é a mão que bate o bolo depois de tirar o cheiro de bosta que tem na massa crua.
Pois se vocês conseguirem a massa de mandioca ralada no supermercado, feiras públicas, arrisquem fazer essa iguaria pernambucana, ou se achar muito cansativo o lavatório e as espremidas tenho uma receita legal!
Passa numa agência de turismo, pega um vôo de onde você está e venha aqui curtir a pernambucanidade do nosso bolo Souza Leão. 



- Postado por: Lia
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O SONHO SE FAZ POEMA

Lia Lúcia Sá Leitão - 24/10/2001

O sonho faz-se poema,
construindo castelos
criando as princesas
contos de fadas,
bruxos , doendes,
gatos, cobras, cabras,
coelhos de páscoa e papai Noel,
pipas, bolas, pirulitos.
O poema é o desejo
incontido da alma que sorri do tempo
é o barulho do nada
é como a dor que doi,
chora, sangra,
cura, ama,
constroi num brilho mais incandescente
que a estrela cadente que cai no mar.
O poema mesmo que não tenha métrica,
mesmo que não tenha razão de ser poema
é o vassalo dos mil dias,
a alcova dos amantes,
o covil das traições,
tocaia de serpente na tarde fria
ou olhos de anjos protegendo o luz do dia,
doce como o necta dos jasmins
amargo como o adeus
o poema por mais infantil
é em suma a forma mais doce de olhar
o mundo
e se ser o próprio poema.

 

TEMPOS DE SOL

Tempos de Sol,
tempos de Solidez,
tempos de Solidão.

Normanda.


 Há dias atravesso o mesmo caminho em direção ao trabalho, explicando, não, não vou dar aulas, deixei de ser Educadora para tornar-me Pintora e isso muito me apraz, se não tenho chances de mostrar as cores da realidade nordestina nas artes das Belas Letras, o faço no colorido das tintas e nas manobras do pincel, tons pastel como a vida de quem aceita passivamente as determinações de outrem mais forte e estabelecido, ou cores mais vivas e vibrantes, o espírito do guerreiro que levanta a voz e brada eis que estou aqui e vou vencer.

Meu espírito ora se curva diante da melancolia, ora aguerrido afronta as instituições.
 
Voltando ao meu novo trabalho, fica mais ou menos uns 80 quilômetros de Olinda é em Itamaracá, estou reciclando todos os móveis velhos e negros da pousada. Tenho que enfrentar uma rodovia Federal, caminhões pesados, ônibus interestaduais abarrotados de esperanças e sonhos ultrapassam em velocidade meu Gol 1.0 que insiste em ser veloz.

Não é um caminho duro a ser seguido mas um caminho a ser cumprido não é comprido mas tem coisas interessantes que só agora vem chamando minha atenção.
Nesse instante, que o corpo está moído pelo cansaço e os cabelos duros ainda pela poeira fina da madeira, e, eu não tenho como desgrudar-me do computador fazendo literatura por conta de uma estrada.
Será Literatura ou um lamento feliz do que foi o dia? Gosto da Literatura por isso um lamento pode ser feliz assim como as lágrimas podem ser um desabafo alegria e o ranger de dentes a incredulidade das circunstâncias da vida.

Tenho que aprender que o mundo dos negócios não é literário e a vida tem um preço a ser pago, e dinheiro não tem alma, céus! Mas isso também pode ser Literatura.

Meus devaneios podem ser literatura, Deus e o Diabo podem ser literatura!
Meus segredos e conflitos podem ser Literatura!
Estrada, sol, mar, vento, a fumaça do cigarro que escorrega por entre os meus dedos, a estrada, o não pensar em nada e o pensar em tudo, o olhar de quem tudo vê em detalhes e o mesmo olhar que nada enxerga além da linha do horizonte.
Sim! Como posso desvencilhar-me da Literatura? Se os meus olhos vêem um velho e esguio Jacarandá solitário no campo e, imagina a solidão dos dias, das chuvas, o tempo que urge, um urubu sobrevoa num bailado de circunferências, os anos passam e o Jacarandá ali, representando o que pra quem o tempo que se esvai?

Como posso desligar-me da Literatura em sua solidão de estrada quando vejo os meninos que vendem cajus pelos acostamentos, que esperanças possuem maior que a minha? Essa gente toda! Eles falam e eu falo, eles sentem o sabor do caju colhido eu sinto o sabor travado da fruta colhida ontem, distante da árvore, mãe protetora.
  
Pergunto-me em meu silêncio de rodovia Federal, por que repito aos amigos que a vida me curva e não me quebra, sou como capim? Como o mais insignificantes dos matinhos que se retorcem até o chão e não se quebram! Que resistência é essa? A mesma dos poetas?

Quem não tem em vida um poema silenciado?

Mas que poesia? Nunca fiz poesia, escrevo sem estilo e sem estética, escrevo o que sinto, e insisto em amar a literatura dos gabinetes, as bem arrojadas, pensadas, criadas, elaboradas, escrevo o que qualquer crítico diria, esqueça!

É senso comum! Não há poesia, não há o inusitado, não há a metáfora! Não há a poética exigida para a criação do conteúdo o elemento do ter e do ser! Não há nada que justifique poesia em que escrevo.

Porque insisto tirar do nada a minha visão de mundo dependente, tudo que quero escrever alguém mais sábio pensou antes e adiantou suas notas e se tornaram célebres.
Porque não deixaram nada para que eu pudesse escrever de inusitado? Queria escrever sobre a Loucura, a felicidade é loucura e assim seguem o amor e a dor, a flor e a vida, o sol, e meu Deus! E meu pecado! E os anjos e o diabo que criei para infernizar meus minutos! Minha condenação e minha salvação, mas tem tudo isso em elogios da Loucura  de Erasmo de Rotterdam, quis falar dos dias e noites de amor e de guerra, em que o medo paria a coragem de enfrentar os canhões, e a voz não calava diante das injustiças, e as denúncias de insconstitucionalidades políticas não se reprimiam ao lado do corpo suado do parceiro adormecido. Mas Eduardo Galeano adiantou-se e tudo está registrado. Eles gênios da literatura e eu a tola que dirigia um Gol 1.0, de volta para casa, e, olhando o sol puxando as cobertas para acender em luz em outros cantos em outras praias, que sina a minha de querer escrever o que já foi dito!

Todos falaram no silêncio de nunca poder ter em  mãos o desejo mais que ardente da pessoa amada, será que todos também foram parecidos comigo? Tinham um porto que não queriam ancorar seus barcos de pescadores porque a marina do vizinho era sempre mais deslumbrante?

O que quero? Um amor com nome, celular, e carteira de identidade ou o angustiado desejo de não tê-lo possuído? Continuar imaginando em meus silêncios a mão forte do homem que jamais será o príncipe das minhas mil e uma noites, será sempre o espectro que toca meu corpo ou o beijo dos Risíveis Amores?
 
As fantasias que sonho e o cheiro da pele que crio em minha reclusão de escritora sem metáforas! Onde anda a poesia da vadiagem nua, lua, bruma, perdia conta das horas e a dimensão da banheira, e diz o físico dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, eu heim!

Xi!

Se eu estivesse dirigindo agora, certamente teria parado o carro para questionar uma nuvem pesada e cinza, porque não chove logo para aliviar o calor ou seria bem provável que teria me estabancado barreira abaixo capotado trezentas vezes por pensar coisas tão comuns ao volante.
 
Diabos, eu sempre pensei que fosse diferente, no entanto, sou mais comum que uma piada que faz corar o ingênuo.

Calma!  Não sou tão ingênua o quanto queria ser, podia orar diante de um santo numa proposta indecente, ou corar elogio como fazem as boas moças, mas que nada! Deselegantemente dou risadas.
Podia falar meigo, doce, e nunca chamar palavrões, mas não tive tempo de aprender a ser meiga e terna e pura e doce como as meninas dos contos de Alencar.

Arre! Que tamanho disparate a minha própria vida sem poesia.

No caminho de volta do trabalho, tem uma ponte sobre um Rio ironicamente chamado São Paulo lembrei dos amigos da internet ponte Rio / São Paulo! Mas que diabos isso tem com minha história?

Bom voltando a ponte do Rio São Paulo, no parapeito da ponte um casal, ele segurando a bicicleta com uma mão e o outro braço abraçando uma moça, seus dois amores suas duas vidas, poético beirando o patético, uma transporta a outra guia.

Olhei pelo retrovisor e vi que ele a beijava e eu tinha que olhar o caminhão que freava à minha frente.

Diabos!

O que eu prentendia escrever?
Nem lembro mais.
Perdi mesmo o fio do raciocínio e depois daquele beijo só restava mesmo chegar a casa, estacionar o carro, correr para o micro e escrever algo sobre a minha solidão da estrada!
O querer de um beijo! Sobre a literatura! Sobre um casal de namorados, sobre o que? Sobre a propaganda da TV que me fez chorar ou a novela do final de noite que me despertou desejos de pecado mortal, amai o próximo mas NÃO DESEJAI o próximo da outra!
 
Desejar o quê? Quando não se tem idéia da textura da madeira? Da transformação das cores. Da finalização das emoções depois de concluída a peça.

Ah sim! Escrevia que deixei de ser Educadora para ser pintora, interessante! Nunca tenho idéia preestabelecida daquilo que faço porque assim como não sei cantar um poema em Dó maior, também não sei o que crio o que vou parir, se a cor tranqüila dos que se conformam e por algum motivo se acomodaram, ou algo inflamado dos que ainda não tem medo de acreditar que podem nem que seja escrever um único poema nem que seja de amor.     



- Postado por: Lia
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