Eu..Lia...

 

Olindense por amor e escolha e Recifense de nascimento, professora de Língua Portuguesa.

Amiga, companheira, justa, verdadeira, mas com alguns graves defeitos, brigona, encrenqueira, jamais  injusta.

Desenvolvi no decorrer da vida, as artes plásticas como divertimento, como pintura óleo sobre tela, decorações e pátina.

mas de todas as construções artísticas preparei-me com esmero para a escrita, a arte da elaboração dos textos

e com um desejo maior...que o leitor mergulhe como um personagem.

Desejo todos dias felicidade para todos, apesar das adversidades do dia-a-dia de cada um.

Família

Venho de uma família sólida, uma mãe que soube doar amor,

carinho e alguns tapas na hora necessária. Hoje olho o céu e

vejo uma estrela piscando e sei que ela escolheu ficar ali, no céu e

está sempre invadindo meu quarto com seu brilho de estrela.

Mesmo que o sol esconda por algumas horas,

eu sei que ali está minha mãe feliz e sempre guiando meus passos.

Meu pai, antes de pai um amigo sincero, fiel adorável,

um HOMEM que cita que requisitos bons, como ser humano não é

elogio é dever de cada um e ele segue a risca o princípio cristão:

Amai o próximo como a ti mesmo. E assim sendo diz tudo.

Filhos, meus lindos bonequinhos , que criei com amor mas ficaram grandes,

homens que aprenderam a cantar e voaram para longe do ninho, mas não

esqueço meu pequenos, sempre com o mesmo amor que os escolhi para serem meus.


Amor


Os amores chegaram na hora certa e partiram na hora exata. Mas cada um formou um elo muito forte de amizade. Sou aberta a um bom papo, a um companheiro e a um novo amor.


Amigos

 

Todos meus amigos da net, todos meus amigos reais,

enumerá-los seria maldade, se  acaso esquecesse unzinho,

reservo-me a dedicar cada texto a cada um também, como

se fosse um diamante que gostaria que guardassem em seus corações.



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Os textos aqui postados, são de minha autoria e tenho direitos reservados sobre eles.

Espero que gostem, sejam benvindos(as).

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Tia Juvina e a Gastronomia da Casa Grande

Lia de Sá Leitão 24/2/2008


Hoje fiquei melancólica! Geralmente sinto prazer de ir para a cozinha e colocar em prática aquilo que aprendi nesses dias de aula na Faculdade.
Um dia estarei chorando para sair, matando aulas, mas nesse momento, a empolgação do curso, estudar fatores que desencadeiam contaminações, disenterias, febres, intoxicações severas ou leves.
O cuidado da higienização dos alimentos é fundamental, nada de deixar peixe no prato com nadadeiras de fora, camarões fritos decorados com camarões crus, alface sem lavar no hipoclorito, fazer flozinhas em cenoura sem raspar a casquinha que foi enterradanuma vala com estrumes animais, Gastronomia  é na verdade um barato, quando se gosta claro!
Pois, hoje estou melancólica! Não fiz o almoço domingueiro regado a todos os cuidados necessários de um Cheff.

Cedi aos prazeres da preguiça em dormir até mais tarde, relaxei geral a comidinha do almoço, deixei que colocassem ao forno, uma dessas lazanhas congeladas, pálidas, gostosas sem dúvidas, mas desprovidas de amor.
Lazanhas de microondas são servidas fervendo, mas, não são quentes como aquela que tem o temperinho da mão que arruma na refratária cantarolando um Pavaroti e com uma taça de um bom vinho para dar o ponto da temperatura na cozinha caseira.
Quanto ao jantar cada um por si, coca cola e pão com ovo, leite e pão com ovo, suquinho de garrafa e pão com ovo, quem quisesse quitutes que fosse encarar o inox 4 bocas, hoje estou literalmente preguiçosa.
 
Falando em ócio, preguiça, tempo desocupado, o pensamento cria asas, vai tão longe no passado que questionamos, ainda lembro desse fato? Era tão criança!
Esquecida das horas. Fiz um apoio de travesseiros e almofadas, escorei o corpo e abri o computador para dar uma olhada na agenda, queria fazer algo diferente, estudar. Abri várias fontes de pesquisas sobre contaminação de alimentos, açúcares, tirei até cópias li uma a uma, mas a saudade apertou o coração cada vez que olhava aqueles papéis, sabia que na fazenda ninguém precisava de nada daquilo e todos eram fortes , resistentes e felizes, uma caganeira num dos moleques era água o rio, uma fruta colhida no chão das árvores, carne de caça mal tratada, peixe de rio na brasa dos açudes, manga com leite, queijo mofado do calor no guarda comidas, ou mesmo o bolor que ficava nas bordas das canecas com caldo de cana tirado da moenda manual.

Tia Juvina nunca deixava passar o alimento de um dia para o outro, bolos, sucos, até mesmo doces em compotas ela mandava para a rua.
A velha era tinhosa, implicante, fofoqueira, mas essa bondade ela levou para o mausoléu, uma espécie de capela cheia de anjos gordinhos, magricelos, querubins e adolescentes, com anjos apontando o indicador para o céu e uma oração em Latim, acredito que com aquela corte celeste devia ser a Oração do Santo Anjo do Senhor.
Tudo ali foi erguido à base de ostentação, a velha era poderosa, rica, desajustada, solteirona, magérrima mais parecia uma vara de caniço.
A tinhosa mandou trazer um arquiteto da Europa para construir em mármore italiano sua derradeira morada muitos anos antes de fazer a Páscoa.
 Embora não topasse com simpatia a cozinha de Ba e das suas implicâncias com as outras serviçais da cozinha e as da limpeza de casa, as babás, as bordadeiras, todas as boas sobras do dia eram divididas de forma que ninguém ficava sem sua janta ou lanche noturno. Pensando aqui, será que era isso que fazia aquela mulherada serem peitudas, com seus bundões de afros descendentes requebrando ao som do pisar na terra, ao se requebrar nos tamancos das rodas de cocos ou nos sambas de testada que varava a madrugada pelos botecos ou barracões.
As mulheres da casa grande eram fornidas, fortes. Mulheres muitobem alimentadas capazes de arrastar móveis imensos de madeira de lei e nem suavam ao contrário cantavam as arrastadas modinhas de eito de engenho ou os hinos dos santos de devoção na Igreja colada a casa grande onde pelos anos de trabalho para a família, podiam assistir a Missa nos últimos bancos.
Ba era diferente; sentava com seu véu azul cor de Nossa Senhora, disfarçava bem a Deusa Iemanjá sua protetora na roda de batuque escondida da Tia Jenoveva e tia Juvina.
 Ba ficava ali no primeiro banco junto com as crianças inclusive eu.
 
Toda manhã, depois das ordens da Tia Jenoveva que era a maioral, Tia Juvina mandava a Ba servir o desejum os empregados, como ela chamava as taioquinhas da casa, um panelaço de mingau de milho com cuzuz e charque, tapioca e macaxeira, iame São Tomé e galinha partida em nacos, que davam pra alimentar um batalhão de homens, pães caseiros feitos na madrugada e bolos de fubá ou broas de milho com melaço e açúcar polvilhado. Apesar de ser a comida dos empregados era tudo  muito gostoso.
No almoço enquanto os netos mais velhos, que os mais novos eram obrigados a chama-los doutores e se refestelavam nas mesas forradas em toalhas de linho branco, o povo da casa grande comiam arroz de galinha cozida desfiadas, uma foram e risoto matuto que levava cenoura picadinhas , vagem e chuchu, com assados de carne de porco e boi,  bebiam vinhos caros a taiocagem comia favas ou feijão branco mergulhado na banha do bucho de boi cortado em tirinhas.
Tia Jenoveva e Tia Juvina compravam na cidade caixotes de bacalhau, não podiam faltar os
peixes salgados na mesa dos pobres, quantas saladas de bacalhau comi em minha vida que os maiores Cheffs de cozinha chorariam pelas receitas.
Muito mais delicioso que qualquer iguaria da mesa da casa grande.

Eu fugia por baixo da mesa e saia à francesa para o pátio de alvenaria, coberto com telhas e com várias mesas dispostas pela hierarquia do trabalho da casa e pedia para fazerem bolinhos de fava ensopada nos molhos de bode, ou capão, ou carne de boi.
Estou babando de desejos, aquele arroz papa, para dar a liga e farinha torrada na cebola e no alho misturada com farinha de milho para dar sabor e liga.
Um bacalhau regando com molho vermelho de tomates frescos ao fruta pão cozido depois de colhido na árvore.
Tia Jenoveja fazia vistas grossas quando entupia no prato um guisado de coração e moela, fígado de galinha picadinhos cheiro de coentro, cheiro de pimenta do reino, cheiro de alho pisado.
O sabor da comida estava naquela fumaça que dominava os ambientes, subia generosamente pelo fogão a lenha e convidava quem estava no pátio, na casa, todos os estômagos desavisados que sob o olhar da Tia Juvina os encantamentos das iguarias pelas mãos de Ba e seus gritos histéricos para economizar deixariam os Mestres franceses entupirem os pratos sem aquela delicadeza de pincelar com graça e arte um prato que na segunda garfada não deu pra sentir sabor, acabou o objeto desejo que é a comida, paga-se um horror e levanta-se com a sensação de uma fome braba. 

      



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Sala de Gastronomia

Lia de Sá Leitão (Normanda)
17/02/2008.

Pois é! Estranho? Eu que o diga. Cumprimos todas as exigências da Professora com o fardamento, jamais saberia que o nome daquela bata se chamada Dólmã, e eu chamei de dálmata, passei a maior saia justa, ia comprar uma bota de açougueiro branca em borracha tipo aquelas sete léguas, e o sapato apesar de feio é confortável e de cor preta. Ainda com a síndrome de obesa pensei em comprar um pijama (não sei o nome daquela calça folgada e confortável), comprei uma faca de duas polegadas daquelas que Maria Bonita castrava os machos adversários do bando os cangaceiros, e uma outra linda, delicada, mas afiada que nem a língua da minha atual sogra.
Fomos ao laboratório, amigos e amigas, pense numa cozinha de conto de fadas, meu novo objeto de consumo, não vi nada igual em nenhuma cozinha de programa de televisão conceituado, verdadeira fortuna em artefatos de utilidades domésticos funcionais. Basta falar que minha turma tem uns 70 alunos e cada brigada ( equipes) tem sua bancada luxuosa particular.
Fomos aprender a trabalhar com as duas facas primordiais na cozinha. Delicadamente a professora mostrou técnicas que jamais imaginei existirem, encantei!
A professora circulava de bancada em bancada e cada um fazendo seu trabalho, dedicadíssima essa aluna que vos fala, tentava comportar-se como uma verdadeira cheff, afinal fiz D. Zefinha a cozinheira da nossa casa ensinou-me os truques que aprendeu no cursos da comunidade patrocinado por uma ONG conceituada.
Senti-me escondendo o jogo nas mangas do dólmã, a competência personificada, séria, olhei para a imã mais velha que dou boas gargalhadas com a falsa timidez que ela faz questão de assumir a persona escondida de uma cheff empírica, mas de uma competência sem igual.
Ninguém barra Tetê nas festinhas de aniversários, feijoadas, rabadas, peixadas, sinfonias marítimas, camarões, lagostas, organiza artesanalmente jantares requintados com aquelas sobremesas que mais da vontade de ir primeiro na sobremesa que na comida da ceia, tem de tudo; inclusive na última reunião cheia de frufrus , tinha até sabonete líquido para as pessoas lavarem as pontas dos dedos, e eu vi um deputado federal conceituado beber a cumbuca de sair bolhinas de sabão ao falar(exagero claro), mas que o empacotado de Brasília bebeu é verdade! Bebeu e todos fizeram que não tinham visto, só eu claro que dei uma gargalhada, adoro micagem!
Tetê pegava nas facas com delicadeza de uma gueixa chinesa,  pegava na faca como quem canta aquela modinha de criança “ meia noite! Hora da morte! Um fantasma atravessa a sala, um esqueleto com uma faca...passa manteiga no pão!”
A Mestra deu a ordem: favor todos com os lombos em frente a bancada, tentem tirar a pele que envolve a carne maciça e limpem toda a peça, depois, fatiem como se fossem fazer bifes caseiros.
Não tive dúvidas, joguei a inerte vermelha na minha frente, rasguei de um lado para outro tirei ripas e ripas daquele couro, atracada com a faca como um médico legista que abre um defunto sem muito cuidado em ser retilíneo.
A professora passava por todos sem muita atenção, mas parou em minha frente mostrou o jeito correto de segurar a faca e disse: assim é mais fácil. Afinal você está cortando bifes caseiros e não decepando as orelhas da rival.
Depois que a Dra. em Gastronomia alertou o fato, despertei que não era bem as orelhas da rival que estavam sendo extirpada e sim a língua de uma tia velha fofoqueira, a Tia Juvina, velha solteirona, malvada, maldosa, sem graça, que fez a maior vergonha na minha adolescência, viu o primeiro beijo que levei na boca, de um menino é claro, e do fato fez um reboliço enorme, graças a cuca fresca do meu pai para o momento e a leveza de alma da minha mãe que não levei uma surra como devassa.
Naquele momento passei a observar meus movimentos em relação aos cortes de legumes, carnes, peixes e galinhas,  inconscientes, eu esfaqueava depois, fazia picadinho, quem assava inteira e cheia de tempero de conformidade com o dono. 
Só não me vi entrando no contexto como um ato vingativo e secreto desejo de descontar as atrocidades vividas na adolescência.
Andei meio atordoada, pedi ajuda, queria me livrar daquele sentimento criminoso, suei icebergues; será que alguém podia ler meus pensamentos? Senti vontade de chorar. Chamei a Mestra e disse, professora estou com sentimento de culpa, ela ficou séria e questionou, pelas orelhas da rival? E fui sincera não pela língua, ela a dei boi? Mais uma vez eu neguei e falei a verdade, não a de minha tia, ela riu, disse isso passa, quero ver como será quando você for trabalhar os cortes perfeitos em uma galinha.



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Voltei Recife.

Lia Lúcia de Sá Leitão.
13-02-2008.

Olá pessoal, leitores assíduos do Diário Azul, venho com grande carinho e emoção falar sobre a minha mais nova diversão. O Curso de GASTRONOMIA.
Deby, amiga virtual, antiga do chat na sala 5, que o diga, ou Normanda toca fogo na cozinha ou dessa vez aprende a se comportar decentemente  como compete às pessoas de bom senso.
Na verdade estou dando boas risadas, uma adolescente da terceira idade metida numa sala com pós adolescentes dispostos a concluir um curso de Gastronomia com eficiência é lógico! 
Mas terei o prazer de escrever sobre o dia a dia de ser universitário em uma Faculdade tropa de  Elite com o grau internacional de Núcleo de Excelência Tecnológica.
Tudo começa da maneira mais simples possível, tanto quanto o elementar pensamento e índice de cognição dessa aluna dedicada e observadora desse conceituadíssimo curso de Gastronomia no ano da Graça de 2008.
Primeiramente retornaremos aos fatos históricos familiares das fazendas e engenhos de açúcar, trarei em homenagem a póstuma a Tia Genoveva.

 Na época da tia Genoveva, para aqueles que conhecem Normanda na sala de Chat, sabem bem a existência da tia chata Genoveva, austera, religiosa, dona de um poder avassalador e dotes modernos para os idos do início do século passado, posso dizer que sua influência não era machista, até bem feminista, mas o olhar muito masculino para sua época.
A rainha dos engenhos e articuladora política entre  transições das ordens do baronato e o poder coronelista nordestino, as ilhas familiares formadoras dos clãs matriarcais. 
Presa à terra e aos padrões sócio-econômicos e aos seus peões de eito, suas cana caianas de mel, suas canas de fabricação de água ardente e da pêojota (pra facilitar entendimento de poj, uma cana sem sabor, magra, tísica mas que processada dá álcool e mói motores.
Mas deixemos isso de lado porque não sou especialista em canas a não ser quando freqüento os botecos da vida e me alegro com as comidas ao molho, os iames cozidos, macaxeira ( aipins), carnes de sol na brasa, cabritos assados ou bisteca de porco. Finalmente cheguei aqui, temática do assunto em discurso a gastronomia.
Conheço um pouco de história oral e viva daquilo que sofri na Casa Grande de Engenho ou em Casa Forte com a tia Genoveva, apesar de idosa vigorosa, apesar de vaidosa nada generosa.
Lembrando o velho engenho d’água, ou aquele outro de moenda a burros, os pães de açúcar, as taxas de cobre polidos a cinza, os canos de obre os alambiques, as fornalhas que engoliu o primo Juvenal que aparecia em noites de melaço, vivia com o cão porque o corpo dele sumiu nas tochas da fornalha. Uma lembrança boa, dócil, cheirosa a banha de porco e coco ralado, cheirosa a carne fresca e molho de gengibre com tomates.
Chega feliz, sorridente, mansa, manzanza (termo nordestino pra expressar uma modorra tipo preguiça), lá  vem somando à memória minha  Ba, negra, gorda, lustrosa, movimentos leves para o peso os seios que amamentou tantos inclusive a mim.
Generosamente livrou os peitos da Sinhá Dona, minha bisavó ficarem flácidos e assim seguiu em gerações, os tios avós, minha mãe, eu, meus primos e tantos necessitassem de vida.
Eita molequeira que a Ba deu o mel mais doce, entregava seu colo aquelas duas raças sem distinção, sem raiva, sem mágoas, os negrinhos ficavam homens fortes dos eitos, gente de fibra, de suor e cabelo nas ventas, se tornavam cabras machos. A outra os filhos das filhas da Sinhá  que se distanciariam da terra, estudavam e mais pareciam gente estranha inda do velho Continente cheio de cambraias e bordados, verdadeiros dandis, delicados e cheios de misturas, preguiçosos, alienados com poder, aquela classe que ao posso falar porque estou lavando roupa suja da minha família que se diziam machos, educados mas machos.
Que diferença! Uns voltavam para mandar, se diziam detentores da moralidade e a outra cortaria cana no eito e serviria as moças finas que falavam francês fluentemente e tocavam piano na casa grande.
Estou fugindo ao tema da gastronomia, quero falar nos quitutes que Ba fazia, e se estivesse viva riria suas altas e dobradas gargalhadas dizendo, a fia o douto ta estudando na falculdade para ser cozinheira, e voltaria a rir e segurar a barriga grande e gorda de petiscos e guloseimas diárias que a minha Ba, só ela sabia como fazer.
Lá estou eu correndo que nem uma carrapeta (peão de madeira usado no nordeste).
- Ba quero doce de coco com mamão, berrava pelo corredor enorme, Ba quero alfinins passando pela biblioteca do bisavô, Ba quero arroz com ovo, na porta o quarto da tia Ifigênia, Ba faz pipoca,  adentrando na cozinha vermelha que nem um pimentão.
Ba a sinhá mandou fazer bolo, fios dourados, pudins e  biscoitos, vem gente da capital,não dê ouvidos a Normanda ela sempre deixa um maluco quando começa a falar igual a uma metralhadora, faça apenas o que a sinhá mandou..
Toda a vida da casa girava em tono das ordens vindas da sala e da salada de tomates frescos, pepino, alface, cebola, que saia das mãos de Ba.
A tia Genoveva acordava todos os dias às quatros horas da manhã, arrepiada dentro do seu penoir de seda cheio de plumas brancas na gola, cheia de creme francês, mais parecia uma das assombrações da fazenda. Fazia as abluções e sem a menor vergonha e cospia a água que chacoalhava na boca pela janela, caminhava em passos firmes de general para a melhor ala da casa a cozinha, a mesa de pau ferro enorme já estava posto o café torrado, cuzcuz, leite de vaca quentinho, creme de leite, manteiga e pão caseiro, bolo, o cheiro de banana frita regada a mel de engenho tomava conta da primeira brisa que invadia a casa pela porta da cozinha para o primeiro andar, os quartos das tias mais velhas, tapioca de queijo, tapioca com  coco ralado, tapioca molhada ao leite de coco, manjar de ameixa de caju, suco de pitanga, suco de caju, graviola tudo passado no pano de saco alvejado pelas mãos das ajudantes de cozinha. Ali ao tinha nada de eletrodoméstico,  Ba tinha medo o barulho da modernidade. O fogão era a lenha mas tinha seis bocas de fogo labareda, as panelas de ferro pesavam mais que o juízo da meninada que já acordava aos berros para não tomar banho frio de latada.
Tia Genoveva chegava, sentava na cabeceira da mesa , antigo lugar o bisavô antes de sair para administrar as suas terras e depois de uma manhã inteira voltar para casa, descansar na rede olhando aquele mar de folhas verdes ao sabor o vento pra lá e pra cá esperando a hora do almoço.
Depois de refestelado e empanzinado dormia a sesta até às três horas da tarde para se entregar aos deleites  da leitura na biblioteca, rever as contas das toneladas de cana e a produção as sacas de açúcar, a quantidade de  pinga para o sertão, e outras coisinhas mais que ao posso explicar agora. Era essa a rotina de Pai Miguel todos os dias depois do cerimonial matutino. Calçava novamente as botas cano longo, montava no seu lindo puro sangue árabe e saia para as suas putas de estimação na casa de Dona Amalis.
Tia Genoveva assumiu todos os costumes o bisavô menos a casa de Dona Amarílis mas, dizia que era esposa de um homem só, apesar dos vários filhos dos vários maridos finados. Mas desviei o assunto para dar ênfase a vida pessoal da tia e do bisavô, quero que se lembrem que a Sinhá Genoveva, nessa hora da manhã, em que o galo cantava, a galinha ciscava, e o aboiador anunciava o sol nascente, ela arrepiada dentro daquela gola mariscada que mais parecia uma franguinha da Guiné dava ordens histéricas.
Ba! Hoje teremos frango cozido com batatas, arroz, cuzcuz, feijão de corda, legumes e saladas, doces de batatas doce, caju e jaca, nessa casa agora vai ter ordem nada de estragos! Mande Antônio foiceiro matar o porco quero aquele coxão assado, com costelas e bistecas de fogo, deixe a mancilha cevar, os miúdos no viandálho e tempere um saparatel, nada de estragar as orelhas, os pés e o toucinho, apronte a feijoada , estou desejosa de uma comidinha leve e diferente.
O povo da casa ia levantando, e se chegando, os agregados, os convidados, era o momento em que os mais próximos entendiam os poderes hierárquicos estomacais, havia naquele momento um sorriso democrático em todos os adultos, enquanto a mesa das crianças estava sendo arrumada com todas as iguarias da terra, banana cozida, banana frita, pão caseiro, queijo manteiga, queijo branco, mel, frutas, mamão, melão, sucos  e bolos.
E o dia estava claro, todos ainda ao redor das mesas todos animados, discutiam  o dia enquanto as crianças desabavam uma a uma para as brincadeiras no terreiro, no açude com os barquinhos, ou engaiolando os passarinhos perto da  cachoeiras.
 



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O ESPELHO ...
FOTOGRAFIAS DE VELHO ÁLBUM
         3/01/2001


Nunca paramos para a importância à demora humana, o que incomoda é o carmim do batom e o silêncio dos olhos
É necessário um pouco mais de calma para enrolar o fio da pipa, e guardar tudo no armário da cozinha.
Lembrar dos instantes e a hora da conexão...aonde mesmo?
 juntos a distância se faz impiedosa.
Viajar em tua solidão de planeta azul
volátil quanto o pensamento
ou a fumaça dos cigarros perdidos na noite
a água mineral bebida na boca garrafa
roubando-te um beijo.
e o silêncio das horas angustiantes,
dos fantasmas caseiros,
a versão cristal,
suave e frágil porém empoeirada de tempo.
Estatueta em mármore adornando as salas do  apartamento de cobertura
A versão persa remoída e danada das insônias.
o anjo virtual do prazer
a amante de todos os momentos
a vontade imensa cobre os desejos de abraçar o corpo...
o corpo que não se conhece.
Deitar ao lado no chão da sala e rabiscar com os lápis de cera um nome
Amar cada instante desnudar o eu em sua alma
e viver.
ainda existem os encarcerados do velho álbum de retratos
e o medo não permite espaços
É possível a falta do que  se deixa passar
ou do que fôra perdido,
esquecem-se de si prórios
estéreis e fugases esfinges
Desfruto da distância... o vício
O entorpecer dos devaneios de mulher
As regressões mais que uterinas por não saber o que fazer
Com os tesões, comichões, caquinhos do espelhos,
deixados pelo chão do quarto
 o lobo mau das lembranças...

PERSONAS!

Sinto um cheiro que pode ser o teu
Mas como explicar se está em minhas mãos?
E o suor de tua ausência corre pelo meu corpo
Imagino-te rio e afogo-me em interrogações
Viro de lado busco o sono
Vejo-te sumindo, arfando.
Quero que voltes... quero apenas que voltes
Sinto saudades da vida e o eterno Reino do Sol
Sinto frio... muito frio.
Foto(e)grafias
Os sonhos da princesa foram guardados numa caixinha de madrepérolas dentro de um redoma de cristal,
Vivia seus personagens num castelo azul,
sem bruxas para assombrar o obvio,
sem mal assombros para despertar o ódio,
arribava as bandeiras do seu reino colorido
deixando tremular ao vento
a marca de um amor melancólico
satisfação da menina
que brinca incontinente ao tempo com a boneca de louça chinesa
e tu menino triste,
personagem anônimo e absorto em Servantes
abre os olhos,
olha o mundo tempestuoso do mar em fúria,
dos barcos naufragados
e dos piratas de bronze que sobreviveram
na ilha da eterna arte. 
Um amor assim não sobrevive de ilusão
Entre o que foi criado pela imaginação da menina
E o menino .
Entre o delírio de um sonho
E o virtual inacabado de perefeição.
não há feio
não há o belo
não há música nem compasso
apenas palavras
apenas idéia em desalinho
apenas o sonho
o sono
o fim da espera
o sorriso
As fotografias amarelam,
e prendem o oxigênio de quem se sustenta na memória 
 o tempo.

Em teu peito o cheiro
Em teu corpo o abraço
Em teu prazer o delírio
Em minha alma teu mergulho
Em teu sorriso o orgulho
Em teu amor o segredo
Em meu sofrer o silêncio
Em teu desejo sou a loura de não ser paixão.


Ela afasta-se do diário azul  espantada de escrever aquelas coisas de tão suas não existe poesia, apenas poeira, teias de aranhas, palavras tristes apenas, ritmadas pela cadêcia seca da tecnologia, tenta desistir de pensar mas tudo se soma, tudo se faz mais forte que a própria vontade; assim, o tempo passa como a brisa, o mar tantas vezes descrito, a madrugada cúmplice de si mesma, é hora, é tarde, e o que resta são o papos furtivos, uma miragem de alguém sempre oca de ossos.

São divertidos os fantasmas que dançam na noite,
alimentam o sonho ao roubar o sono,
invadindo as horas íntimas
dividindo os primeiros raios de sol
bêbados, alquebrados, incandescentes
exauridos de sonhos, de planos, de personas.
São solitários os fantasmas que fluem da bruma
Acalentam em lembranças boas o nada
E no silêncio se faz verbo, sorrisos, caretas
O mesmo sorriso preso na fotografia escondida do arquivo
ninguém pode saber
os segredos são fantasmas
que deixam encardida a lembrança
viva, incontida,
porém miserávelmente retida
do cavaleiro andante.

O pôr do sol
Desperta forte a lembranças
do poema escrito no guardanapo do bar
lembrando noites de fogo e folia
desejos.
Velocidade e ruptura
Mergulho,
O corpo sedento
A espera abandonada do olhar
O sonho se faz construção e a alma perde-se num papel branco
pela escrivaninha do poeta fingidor
Resta um perfume que nunca fora sentido
A mágoas, os medos, os traumas
O naufrago reticente 
Um mar
solidão

 Continua olhando o teto como se as imagens se projetassem num maravilhoso e absurdo filme dos últimos dias, inacreditável o comportamento humano, inacreditável.
Os tolos olham o carro, o homem ainda vê na mulher a imagem aterradora da mãe, outro alguma semelhança com a amante nunca ela em essência e pensamento.
 Ela só queria ser feliz, mais nada ser feliz! E levava como Sisifo o peso da própria amargura nas costas e transbordava suas incertezas, suas lágrimas, seu estar mais que intranqüilo quando via no outro o pecado da omissão, o delírio dos sonhos mais azedos do fingidor.
Ela só queria ser feliz, e não encontrava em si o sorriso de menina imaginativa que subia nos muros, roubava frutas nos quintais vizinhos, corria livre pelas praias e abraçava-se nas pernas do pai, que fazer? Olhava o teto e via cenas de espelhos refletidas em cada nuance de tempo como sabor de dor... com sabor de hoje... sem explicação... com revelações escancaradas de vadiagem e repúdio.
rejeição!
A menina nunca dantes tripudiada fora rejeitada em seu mais puro e fiel sentimento... desmoronou a emoção, desencadeou o ódio mortal pela natureza a revolta camicaze dos que perdem a fé.
A vingança!
Levanta-se abruptamente, espanta os pensamentos de morte, passa levemente a escova pelos cabelos, fecha a janela do quarto, puxa as cortinas, abre o guarda roupas, escolhe a calcinha e  sutien azuis, mete-se em um jeans e mete-se na blusa de seda, calmamente mira-se diante do espelho trincado da avó, fecha a porta dá uma viravolta e ... segura as chaves do carro e da casa... desce a escada na euforia de quem precisa respirar os beijos, e os amigos... esperanças e ganha o mundo sem dar conta dos olhares indiscretos dos vizinhos.
A vida!



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O DIÁRIO AZUL (II)

      Ela sorria o sorriso dos bobos diante o velho espelho da avó, agora, sua lâmina de cristal está trincada pelas revelações dos segredos, dos olhares de silêncio e do contido  pensamento, liberdade.
      Lembrava minutos antes em que chegara em casa, estacionou o seu carro novo em frente ao jardim, o qual denunciava o seu status emergente, a vizinhança corria às janelas e portões, pasmados, tolos! Pensou consigo mesma e seu sarcasmo, IDIOTAS! Muda o século, o milênio e não muda a hipocrisia! Nem o costume dos fogos nas noites de Ano Bom, nem a cultura imposta pelo poder, ano novo vida nova, seja bonzinho por que o sol nascerá azul...daltônicos! Mudam os dias e não mudam os homens.
E pensar que faço parte desse universo! Maldade dela, sempre fora assim; silenciosamente provocava a todos, deixava um a um espreitando o seu mais recente brinquedo, expunha o carro novo da mesma forma como expôs os seus escandalosos casos de amor ou as intrigas, satisfazia-lhe deixar aquela gente inferiorizada, quanta maldade! Ria as risadas mais escandalosas e apontava os vultos por trás das cortinas, como se fazia em tempos da avó, onde escondiam-se pelos muxarabis das casas e sobrados hoje assombrados de histórias, sabia-se de tudo.  
Olhava-se a vida e viam-se luas,  mocinhas recatadas e freiras devotas, padres, homens livres, molecas de recado, mulheres parideiras, feitores, fazendeiros, doutores, poetas, professores, a vida... a cantoria, a inveja causada pelas mulheres da vida que bebiam seus vinhos nas casas suspeitas dos arredores e cantavam suas canções em alta voz incomodando a senhora do castelo cor de rosa que rompia a madrugada esperando seu senhor.
Felizes as vadias da época, dormiam com os homens mais ricos da velha cidade e com seus filhos e os filhos dos seus filhos aprendiam a arte de amar entre os peitos fartos das mulheres servis, e viva a tradição proscrita de ser puta nos tempos da avó.  
Mas por trás dos olhares insuspeitos, escondidas e preservadas dos conceitos, não resistiriam, as moçoilas que tocavam piano nos saraus, as tardes do chá das cinco; chás dos desejos furtivos, dos encontros escondidos, do outro lado da rua... o real desejo de possuir, à pouca  distância, ele, o mistério, o segredo, o caçador angustiado pela demora de um beijo, apressadamente, ela olhava os lados... ninguém... e o caminho era desviado e desvairado, lá estavam juntos no matagal mais próximo, os famosos jardins da casa das amigas,  meninas de sociedade.
Mulheres... mulheres...mulheres...
Navegam em ocasiões distintas do sensível, não importa apenas o registro da carne, vale lembrar o código a ser decifrado no beijo estalado e sedento de língua. 
Assim como hoje, no tempo da avó também as moças casadoiras faziam seus exibicionismos, tão cheias de predicados e pudores domésticos que não salvou uma e todas  ficaram para tia, tornando-se más, ferrenhas, arredias, impecáveis críticas da ordem e implacáveis inquiridoras, baluartes da moral, porém crédulas da velha e nominável beatitude confiavam seus delírios de mulher carente aos sussurros dos confessionários, sedutoras, libidinosas, quentes, sensuais. Assim como quem escreve as eternas cartas para ninguém em seu Diário Azul, passou o tempo, mas não mudou muito, a maneira de castração do inconformado plano da solidão.
Tantas formas facilitam a procura da companhia seguindo a modernidade tecnológica das salas de bate papo até as correspondências e envio das mensagens mais fogosas com as mais sutis intenções ou nos ciúmes jamais explicados do virtual.   
As senhora de reputação ilibada essas são as carolas, pensam em mortificação e jejuns intermináveis, fora as horas consumidas pelas sacristias, mas por punição maior, a Igreja nunca as reconhece como santas e nunca lhes dará a honra dos altares.
As mulheres traídas e as mulheres traidoras. Essas são as mais desgastada pelos olhos de quem espreitava pelos muxarabis, uma por que sofre a ignorância de ser a outra por que regozija-se pela fartura do ter.
Que maldade... abrira o portão como quem abre a cela de um monge em oração.
Andara os metros a vencer para o terraço com a sensação dos olhos grandes queimando a tintura metálica do carro que refletia em sua nuca o peso da admiração solar.
Adentrara na casa, ninguém mais a via, espreitava tal qual a vizinhança, tal qual no tempo da avó, pela janela, por trás das persianas,  aqueles que olhavam o carro agora mais de perto, alguém atrevera-se a passar a mão. Rindo, deu uma reviravolta e subiu a escadaria às pressas e chega rápido ao vão superior, abriu a porta do quarto, caminhou até uma segunda porta, a do banheiro, as roupas voavam como pensamento atirados ao léu.
      Nua, deslizava as mãos pelo corpo sedutor, plástico, ainda era a mesma bela mulher que desabrochara aos 15 anos.
      Pele sedosa, esticada, limpa, macia como a pétala da flor.
      Chegava a examinar cada parte do corpo como quem tudo quer vê, aceita-se mulher. Em criança odiava pentear os cabelos, aprendera parar de pentea-los naquela idade, perda de tempo. Passava eternidades com os  batons da mãe em tempo de menina, e no entanto ali assumia a lógica dos sem vaidade, queria os livros, amava os livros, queria as escritas, queria a pintura mágica que coloria seus sonhos de ninguém como os da tia solteirona que tocava sonatas ao piano.
      Buscava alucinadamente a visão do que perdera na estrada, buscava o seu fantasma perfeito, aquele que arrebatava o sono, aquele que a fazia beijar as mãos em desarvorados amores, ao possuir-se de si parar a si, buscava a mesma tosca imagem presa numa fotografia a punição da dor, das noites mal acabadas, persistia o encanto do amor virtual ou a voz do gênio, num estágio mais avançado da proximidade, uma voz, mais nada.
      Horas ao telefone, esperas intermináveis, uma dor que apertava a alma engolia os sonhos, óvulos vazios, distância perpétua da mais louca história do real enganador,  revolvendo desejos, agoniando o ser,  deixando aos borbotões os fluidos mais quentes que jorram do corpo em silenciosa convulsão.
      Não carecia dos amores carnais, todos nefastos, demolidores, apesar de sólidos, visíveis, risiveis, sustentáveis,  mas ela era carente do etéreo, do não ser, da essência, das promessas e dos compromissos da alma jamais assumidos.
      Mulheres... mulheres...mulheres.
      Segredos das árvores de Natal em pleno Saara com direito a neve, bonecos de gelo e nariz de cenoura e a crença de um Papai Nöel dirigindo um importado.
O pensamento em dizer tenho, sou tua, quero, desejo... toco teu corpo e tua pele, beijo-te, abraço-te, nada mais virtuoso que o silêncio dos loucos, as fantasia dos tarados, a posse dos enciumados, ela quer a diferença dos que gritam por soberba ou a abundância do jamais possuir, a tolerância do intolerável, uma espera dasarrumada entre a mágoa e a vingança, entre o feio e o belo, o céu e o inferno!
O vingar a natureza!
Desejo natural de perda ... ser dono do universo, como deuses que possuem o poder de determinar a morte ou a duração da vida numa danação globalizada do imaginário solitário dos internautas.
      Nada de existencialismos...apenas solidão
      Nada de teorias...apenas situações.
      Nada de argumentos ... nada entre o começo e o fim...bruma.
      Que sorriam dos duentes, que massacrem as fadas com seus olhares de bondade chorando a dor, que sorriam as bruxas os delírios e delícias de quem rir o amor, que abençoe os santos e os querubins, que trabalhem as carpideiras os sonhos eternos de morte, o sono, a prisão torpe que se encaixa no ventre de mulher nunca mãe.
      O nada.
      O poder de olhar a folha em branco do diário azul e eternizar o silencioso castigo mal possuido de um nome, Felice! será delírio estimular o bater da procura no coração de um Kafka  fiel ao texto e correspondente da timidez na mesma forma que ama?
      Mulheres ... mulheres...mulheres.
      Determinadas a ocupar espaços, mas nunca perderam o estilo entre o matrimônio perfeito, entre o homem e o trabalho do homem, eternas escravas das suas próprias conquistas.
      Sai ainda molhada da chuveirada, na ponta dos pés, vestida em seu roupão azul atado a cintura,  deita-se sobre a cama ainda forrada com a colcha de artesanato nordestino comprada para a sogra mais querida, presente que nunca seguiu destino.
Ali, não importava o que pensar ou o que criar, o memento  mágico está por apresentar mais um espetáculo dantesco entre ter a carne e o cheiro da carne e não ter ninguém para segurar a crina do dragão chinês.
Ter a vida e os efeitos da vida, porém, matar mês após mês seus filhos do nada.
Como o amava... corre frouxa a lembrança dos momentos mais calorosos, das risadas mais loucas, dos devaneios do bulinar metáfórico das palavras nunca escritas.... sempre ditas, como amava seus sonhos de poeta a cadência quente e forte da mão que adentra entre as cochas, tocam o púbis, massageia o mais erógeno dos  pensamentos... a fuga como artefato do jogo....ainda não é hora...
Descupam-se... tremendo em sensações doces... desligam-se os telefones... correm ávidos para o micro.
Ela esquece o diário azul.
Ele os sonhos de poeta.
Se encontram... se cruzam...jamais se tocam.... apenas sofrem o silêncio e a saudade da distância cada vez maior o silêncio, cada vez mais profundo o abismo, cada minuto mais dolorida dor.
      O poema se faz nas lágrimas e o público se faz na dor de quem escreve a mais pobre ou mais rica prosa, não existe o mau escritor, existe o mau mentiroso do amor.
Tudo se faz saudade, palavras vãs diante da fotografia... onde só se tem na memória a voz do que foi dito ontem... e o espelho da avó trincou de alto a baixo, assumindo-se reflexo do mundo camuflado das tecnologias.



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O TEMPO

Que o desespero do silêncio
arrebata a alma,
explodindo as lacunas do tempo
abrindo as comportas desérticas
que a tempestade enfurecida da coragem resgate o último olhar, o toque, o poder salvar-se da mesmice do mundo
que se dane o preconceito de tempo perdido.

Vem,

e beija doce
A festa se faz nos corpos que bailam

Vem

e música eterniza o afago nos cabelos

Vem,

amanhã quando passar a lua
E o olhar de ponta a cabeça e encontrar o teto despido de ódio
E a saudade de ter possuído a imprópria sesta respire o cheiro de mar
Quem dera a alma tranqüila
onde a insônia por si mesma aborte a angústia
desvirginando-se em luz
 e o narcisista vácuo do ser
dirimisse o vago espaço da existência do outro
a espera anti horária do desconhecido que se faz momento seguinte
toma arredia a ciência da razão
desmonta o linear caminho da fidelidade.

E se descobre outra.

O que adianta conhecer a outra face do mundo
onde virgens 
virgens da fome dilacera o olhar de desejo
   e o pulsar cardíaco sublima a voz
corra,
não morra!
Não pare.
 
...

eterniza o agora
conspiradora
 é solidão fria dos que calam
 pecado
 é a perda plástica da consciência
traindo a eternidade
tempo.
Corpos nus diante dos olhares de todos os deuses.
tempo.
Emoção de alargar a espera em busca do outro
tempo
Mãos que invadem, sobem, penetram, seguram  o ser
num bailado alucinante dos ritmos
corpo e templo

tempo de corpos.



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DIÁRIO AZUL III

8/02/2001


Madrugada, ela chega, desce do carro novo que despertara curiosidades nos vizinhos e estaciona com cuidado na garagem e rapidamente fecha o portão, fecha também o seu universo, nas duas bandas cinzas e pesadas de ferro fundido, funde-se também a angústia e a solidão dos que buscam a fórmula de encontrar descanso para o abismo que abriu-se sob seus olhos, ali encerrava o contato com o mais carnal das ansiedades os encontros, as risadas, as inconseqüências das palavras soltas e absortas pelo espaço efervescente dos tilintar de copos e talheres, a ilusão de felicidade pungente e os risíveis amores.
verificou se tudo estava em ordem e dirige-se à porta de entrada, afogueada nas faces por conta do wisque a mais que tomara em deleite com os amigos, ajeitara por trás das orelhas duas mechas de cabelos que insistiam em cair-lhe ao rosto, e percebeu ao tocar os cabelos a sensação de abandono, de feto parido antes da hora.
Fez um rápido movimento negativo com a cabeça, ao perceber que o suicida não precisa de tempo, carece sim, unicamente entender seus vazios antes do segundo final.
Rir incrédula da teoria e do pensamento mais estaparfúrdios, suicidas! mas como pode agora pensar em suicidas depois de uma agradável noite?
Sobe a escadaria na mesma velocidade que abana as idéias do suicida do juízo.
Vai direto ao banheiro, descarta as roupas como descartou o rapaz de camisa azul, sorri o sorriso cruel dos vingados.
Acende a luz e inclina-se diante do lavabo mergulhado numa pedra de mármore cor de rosa, quase tocando o espelho, um espelho sem marcas, sem passado, sem tempo, um simples substantivo no banheiro, aquele que só olha o branco da pasta de dentes e as caretas da higiene bucal, esse espelho é aquele que desmaia com os bafos da madrugada.
Olha uma espinha que nasceu na noite, faz uma expressão facial de ironia e diz, adolescência.
Descarta com mais rapidez as peças mais íntimas, abre o chuveiro, mede a temperatura da água, nua inteiramente nua, banha-se num prazer da gueixa de logo cedo, fecha os olhos, sente a água escorrer na pele, sente o cheiro bom do sabonete entre os dedos e desliza como quem rege uma orquestra, suave, espumas e perfumes, doce a sensação do toque e do deslizar da água por todo o corpo, brinca fazendo das mãos um chafariz, fazia isso desde menina, sob os olhos vigilantes da tia solteirona.
A água cai como cascata de bálsamos relaxantes, quente, não desliga a ducha e continua, rodando, fechando os olhos, passando sabonete suave pelo corpo largada ao momento de desligar-se de tudo, desplugar-se do instante e se mesma.    
Percebe-se, toca-se de forma tão mecânica que se abstrai do idílio, pensa no amanhã, trabalho, consultório, a chamada à realidade a constrange, queria ficar horas ali, um ventre largo, quente, esfumaçado pelo vapor líquido.
A razão exige regras mais severas, contas a pagar nada a receber, extrato bancário, filas, correio, sim os correios, franze a testa, por que correios? Só escrevo e-mails, leve sorriso, as cartas para ninguém, as intermináveis cartas para ninguém. Imagina-se escrevendo uma carta para si mesma, ri, loucura! tomar ciência, acho que bebi além da conta.
Abre o box, segura a toalha e enxuga os cabelos, faz um turbante e  passa a mão no espelho orvalhado dos vapores, toma um susto e rir, já pensou se eu saísse amanhã assim? Todos meus clientes correriam, a secretária muito séria, Dra. a senhora está um tanto diferente do habitual, mete-se no roupão azul e suavemente enxuga o corpo, ata-o à cintura, esquece-se das roupas descartadas, atravessa o corredor e entra em seu universo... em seus segredos de fotografias.
Deita-se sem preocupar-se com o pijama de seda, simplesmente deita-se, não queria pensar em nada, não queria ver o deslizar da Lua, queria olhar o nada do mundo. Mas uma paixão recente invadia sem nome, atos e omissões.
Que fazer? Fechara os olhos, a fotografia surgia em movimentos e a tomava pelas mãos, tudo rodava, numa espiralada forma de dança do vento, dança do efêmero, dança do silêncio, dança dos desejos.
Não queria pensar, queria o sonho, queria o sono.
Fecha os olhos e os pensamentos da tarde chegam, o consultório e seus cheiros, a lembrança e o delírio da solidão abafados num só momento.
E assim passa a refletir sobre todas as histórias de amor.
Passando entre o limiar do sono e os fatos da vida, entre o mergulhar no sonho e a sensação da carne, entre o ter possuído e o adeus.
Pensa, arrepia-se num ligeiro calafrio de prazer, pura adrenalina correndo pelas veias dando-lhes choques estéreis de companhia.
Todas as histórias de amor começam com olhares, conversas, simulações; geralmente demora o tempo suficiente  para se pensar em desistir, isso faz parte do jogo de sedução, na realidade, é antes de tudo a hora das investigações.
Os amigos e os inimigos são alugados na mesma freqüência dos satélites.
Ri e afirma; que atire a primeira pedra quem nunca fez investigações ao apaixonar-se? Riu baixinho, e como se faz investigações, lembrou do descartável de camisa azul, bem que poderia ter dado uma cordinha, não era dos piores.
Mas aquele que não aliviava as suas memórias estava ali presente, foi o que acontecera no consultório, seu cliente, céus! Como pôde?
O velho e torpe sentimento de culpa.
Onde havia entrado o transe do delírio e a consciência real da fantasia sensual.
Relembra cada cena.
Estava no consultório, esperava o último cliente.
Cansada das responsabilidades, pensou em desmarcar-lo naquele o horário, olhou a agenda e nada, não tinha um tempo vago para transferência; olhou pela janela de vidro que emoldurava a Avenida mais movimentada do bairro chique uma paisagem da construção do novo centro médico em granito, e perdeu-se na velha viagem imaginária de Viking.
Analisava em flash a sua vidinha sempre sem emoções, certinha desde o amanhecer ao pôr-do-sol.
Quantas paixões avassaladoras? 
Quantas lágrimas de amor? Quantas traições?
Buscou nos mais proibidos segredos d’alma uma fantasia sexual; estremeceu mas não fugiu ao devaneio. 
Um, dois, três toques telefônicos despertara-lhe o idílio, era a secretária avisando a chegada do paciente.
Pede um momento, vai ao toalete, lava o rosto ruborizado, passa a mão molhada sob o rosto, enxuga suave e olha firme dentro dos seus próprios olhos imaginando ser descoberta por sua libidinagem, os homens tem o dom de adivinho, não podia permitir que fosse desvendado o grande mistério.
Arruma-se, passa levemente a escova nos cabelos e não relaxa o batom escarlate, faz parte da persona assumida diante do poder e das cobranças do mascarado mundo azul e a redoma de cristal que envolve o castelo cor de rosa.
Vai à porta e recebe o rapaz com profissionalismo de sempre.
Ele; alto jovial, cabelos negros, olhos amendoados de um castanho esverdeado: atlético, alegre, a voz num tom baixo  servia de tranqüilizante para qualquer carência, pensou de si para si.
Escondia no olhar um segredo matreiro de menino peralta. Essas características incomodavam-na profundamente.
Pensara algumas vezes em transferi-lo para um colega, afinal ele não apresentava nenhuma patologia grave, era só acompanhamento cardiológico.
Numa das vezes que pedira para desabotoar a camisa, quase desmaia, o perfume, o cheiro bom de homem, inflamava segredos, fantasias que só se pode sentir; inenarrável emoção, a química, os devaneios ou vadiagens?
Auscultou mais uma vez a caixa torácica com outras intenções como: atirar-se naqueles braços e perder-se num delicioso abraço.
Na velocidade do pensamento lembrou-se, das vezes anteriores onde a libidinagem do olhar era sustentável apenas pela ética.
Entre os dois, ele despia-lhe a roupa da maneira mais indecorosa e ela desfrutava cada palmo daquele corpo com a leveza de uma pluma que arranha o nu Mercúrio das estatuetas em bronze expostas nos Museus.
Ela insistia num exame minucioso mesmo que de rotina, ele descontraído, contava história de amigos, do futebol, o último livro, o filme do Almodova.
Era um jogo consciente, acirrado de imagens e códigos, ela repetia entre um olhar firme e um sorriso suave quebrando a geleira da relação paciente médico, quando dizia: não pode relaxar a saúde, larga o cigarro, e dele para ela, ao bater no peito e mostrar até num exibicionismo infantil a musculatura forte dos saudáveis.
Aquilo a deixava ainda mais perturbada; insistia em dizer que era um sortudo mas, que o cigarro era seu real problema, e prometia em tom de brincadeira que faria um esforço em reduzir nunca em deixar.
Continuava a conversa falando animadamente sobre a sorte que tinha em tê-la como médica, pois, a maioria dos amigos que freqüentavam aquela clínica tinham acompanhamento masculino.
Sentia a cada minuto cair uma máscara e ele era o culpado do afogueamento das suas faces.
Para sua sorte o telefone toca; perde alguns minutos de cenho franzido e ar de preocupação, por fim diz algo como: traga a pessoa até a clínica com urgência.
Dia difícil, não sairia nem tão cedo, queria expor o caro novo aos amigos, combinara ir ao barzinho costumeiro, não queria perder a noite.
Ao dirigir-se para a saleta dos exames; ele ainda deitado, a maquina produzindo os últimos gráficos no papel, silêncio o mais profundo silêncio, finalmente, ela desliga o monitor, retira uma fita faz uma leitura, rir, e assegura: você está ótimo! um adolescente!
Ele levanta-se calmamente, e antes que ela saia, segura-lhe a mão trazendo para junto de si aquela mulher à beira de uma histeria.
Olham-se por segundos, parecem descobrir um o desejo do outro, ela tenta sair às pressas mas as pernas não respondem.
O primeiro beijo, as mãos, o cheiro, as descobertas voluptuosas dos desejos mais que carnais, a porta, a porta o cliente que virá, céus as horas, ligar para casa, desmarcar o encontro, a porta, tudo girava na mais alta velocidade.
Bêbados de si, não ouviram o telefone tocar, deitados na cama dos exames embalavam-se no frenesi das descobertas, a secretária abre a porta, pasma diante da cena e retira-se silenciosamente.
Exaustos. olham-se mais uma vez; ele veste a roupa, ela vai ao sanitário, mudos, mudos.
Um barulho na sala de recepção, a secretária interfona, ela atende com a voz ainda trêmula.
- Um momento! Peça para esperar um pouco.
- Olham-se pela ultima vez, ele rouba um ultimo beijo e ela o detém.
Ele afasta o corpo  dela num gesto suave agradece o zelo da profissional, ela atende sem palavras imediatas, baixa a vista e deseja felicidades.
Ele estende a mão, ela segura com força a maçaneta dourada da porta.
Ela sorri levemente e ele sai do consultório.
Ela o acompanha até a porta da recepção, silenciosos diante do olhar surpreso da secretária, ele atravessa o roll em silêncio e sai sem olhar para trás.
Uma lágrima escorre pelo cantos dos olhos, é terrível o vazio do passageiro em terras de ninguém.
Ela nem se dá conta da nudez, abraça o travesseiro como quem se segura uma raiz à beira de um precipício e não sente o sono abraçar seu corpo e cobrir em névoas de ontem o presente.
Todo dia é um novo dia, o que não muda são os pensamentos mais ranzinzas de demência e dor que arrastam-se pelas ruas como mais um arquivo, como mais um elemento de experiência.
A cultura do homem está presa aos museus, aos seus próprio museus, uns de rara beleza, outros decrépitos e bastante assombrados, outros iluminados e plangentes como um instrumento tocado ao vento e em praça pública, outros herméticos da cor cinza do ontem.
Uns resgatam os fantoches, palhaços, fanfarras, menos frios e silenciosos que o templo dos fantasmas, mas todos construídos pela insistência do acúmulo das experiências no percurso da vida.
Entre a angústia do que não virá e a deliciosa recordação de ter possuído, a claridade espanta o escuro,  e o dia se faz quente, vibrante, um sorriso Fellini de bom dia ao dia.
Ela, levanta, faz as abluções, e desce para o café matinal com a sensação de esperança, a esperança do telefonema, do reencontro, do que foi bom.
Mulheres... mulheres...mulheres.
As donas dos orgasmos múltiplos ainda se postulam como as presas mais que presas dos seus predadores.
Registra seus mais sensíveis arrepios no Diário Azul, nunca atrevera levar suas inquietações de teimosias poéticas, para outras plagas além do universo das quatro paredes do seu quarto, mas um forte desejo impelia leva-lo ao consultório confessaria suas sensações nos momentos de intervalo entre um cliente e outro, olhara a agenda, teria algum tempo para mergulhar em seus suspiros de quem busca errante a satisfação do mais sublime encontro com o sentimento de mulher.



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